Videopalestra — Curso de Formação em Yogaterapia

Palestra integrante do Curso de Formação em Yogaterapia do Instituto Ananda Nilayam.

Uma psicologia que começa onde a outra termina

No Ocidente, a psicologia desenvolveu-se como um ramo da ciência dedicado ao estudo do comportamento e dos processos mentais observáveis. É uma área valiosa, mas que encontra seus limites justamente onde surgem as perguntas mais profundas: o que é a consciência? O que há além da mente que pensa?

A psicologia do yoga começa exatamente nesse ponto. Ela não abandona o estudo da mente — ao contrário, o aprofunda. Mas seu objetivo vai além do equilíbrio psicológico cotidiano: ela busca compreender a mente como um instrumento de expansão da consciência, capaz de conduzir o ser humano à experiência de sua natureza mais profunda.

"Na Ánanda Márga, a psicologia é considerada uma parte da filosofia. Além disso, segundo Ánanda Márga, a psicologia é mais ampla do que geralmente é aceito pelos psicólogos."

Prabhat Ranjan Sarkar

Dentro dessa tradição, a psicologia é ao mesmo tempo filosofia e ciência prática. Ela oferece métodos sistemáticos que permitem ao praticante investigar diretamente a natureza da própria mente — não apenas pensar sobre ela, mas experienciá-la em seus diferentes níveis.

O papel central da consciência

Na psicologia do yoga, existe uma distinção fundamental entre mente e consciência — uma distinção que raramente aparece na psicologia ocidental convencional.

A consciência — chamada Átman ou Puruśa — é imutável, eterna e não sofre transformações. Ela permanece sempre a mesma, independentemente das experiências ou condições da mente. Já a mente é dinâmica, mutável, variável. Ela funciona como o instrumento por meio do qual a consciência se relaciona com o mundo.

Uma analogia simples ajuda a compreender: quando a luz branca passa através de um vidro colorido, ela aparenta ter cores diferentes. A luz, porém, continua sendo a mesma. Da mesma forma, a consciência permanece inalterada; o que muda é o meio — a mente — através do qual ela se manifesta.

Ponto essencial

Frequentemente se fala em "estados de consciência mais elevados ou mais baixos". Segundo a psicologia do yoga, a consciência em si não muda. O que muda é o nível mental através do qual ela se expressa. O objetivo da prática espiritual é purificar esse instrumento — a mente — para que a consciência possa refletir-se com cada vez mais clareza.

A terminologia: palavras familiares, sentidos mais profundos

Ao estudar a psicologia do yoga, é importante prestar atenção especial à terminologia. Muitos termos originam-se do sânscrito e, ao serem traduzidos para outros idiomas, podem perder precisão ou adquirir conotações diferentes.

Um exemplo claro são os termos consciente, subconsciente e inconsciente, utilizados tanto na psicologia convencional quanto na psicologia do yoga — mas com significados distintos:

Outro conceito importante é o de ectoplasma. Na psicologia do yoga, esse termo refere-se à substância mental sutil que constitui a base dos pensamentos, das percepções sensoriais e das formações mentais — a matéria mental que assume diferentes formas conforme as atividades da mente.

As cinco camadas da mente — os kośas

A psicologia do yoga descreve a mente humana não como uma estrutura única e homogênea, mas como um conjunto de camadas ou níveis — chamados kośas — que se interpenetram e se manifestam gradualmente.

O Ánanda Sútram, texto fundamental da tradição da Ananda Marga, expressa esse princípio com uma imagem bela:

"Paincakośātmiká jaeviisattá kadaliipuśpavat" — O ser vivo é composto por cinco kośas, assim como uma flor de bananeira com suas múltiplas pétalas.

Ánanda Sútram 3–1 · Shrii Shrii Ánandamúrti

Assim como as pétalas de uma flor de bananeira se sobrepõem formando uma estrutura em camadas, os diferentes níveis da mente se interpenetram. Os estados mentais que experimentamos ao longo da vida são resultado do grau de desenvolvimento e expressão desses cinco estratos.

"É necessário saber onde cada kośa termina e onde a seguinte começa. Há duas mentes: uma imatura e outra madura; uma extrovertida e outra introvertida. Somente o conhecimento pode ser perfeito — o conhecimento das cinco kośas."

Shrii Shrii Ánandamúrti

À medida que a prática espiritual avança, a mente torna-se progressivamente mais refinada e introvertida. Suas camadas mais profundas — iluminadas pela consciência do Átman — revelam uma clareza crescente, aproximando o indivíduo da experiência da unidade com a Consciência Cósmica.

Os indriyas — a interface entre mente e mundo

Indriyas é um termo sânscrito que se refere aos órgãos responsáveis pela percepção e pela ação. Eles formam a interface entre a camada mais densa da mente e o mundo físico externo.

É importante compreender que os indriyas não se limitam aos órgãos físicos. Eles incluem também os nervos, impulsos neurais, o cérebro e a interface mental que interpreta as informações recebidas. Sua verdadeira base funcional encontra-se no sistema nervoso central.

Os indriyas dividem-se em dois grupos:

Jñānendriyas — Órgãos de Percepção
Órgão Vibração Função Elemento Cakra
karṇa (ouvido) shabda — som ouvir ákasha — etéreo 5º Vishuddha
tvak (pele) sparsha — tato tocar váyu — gasoso 4º Anáhata
cakshu (olho) rúpa — forma ver agni — luminoso 3º Mańipura
jihvá (língua) rasa — sabor degustar apa — líquido 2º Svádhiśt'hána
násiká (nariz) gandha — aroma cheirar kshiti — sólido 1º Múládhára
Karmendriyas — Órgãos de Ação
Órgão Função
vak (cordas vocais) falar e expressar o pensamento
páni (mãos) trabalhar e manipular
páda (pés) caminhar e mover-se
páyu (ânus) excretar
upastha (genitais) procriar

Práńa — a energia vital

Práńa significa energia vital. Muitas pessoas conhecem a palavra por meio do práńáyáma, geralmente entendido como exercícios respiratórios. Mas o que é, de fato, o práńa? E de onde essa energia provém?

Segundo a filosofia do Tantra, o universo possui dois aspectos fundamentais: Puruśa — a Consciência Cósmica — e Prakrti — a Energia Criadora, também conhecida como Shakti ou Mãe Natureza. No início da manifestação cósmica, essa Energia permanecia em estado latente. Quando estimulada pela Consciência Cósmica, a criação começa a se manifestar.

Dentro de Prakrti atuam três forças fundamentais, chamadas guńas:

Da interação dinâmica dessas três forças surge a energia vital chamada práńa, responsável por sustentar a vida em todas as suas formas.

Os dez váyus — os fluxos da energia vital

O práńa não é uma substância física. Ele é uma forma extremamente sutil de energia vital que se manifesta através de diferentes fluxos chamados váyus. Embora o termo váyu seja frequentemente traduzido como "ar", nesse contexto ele se refere a correntes de energia vital que percorrem o organismo.

Esses fluxos são responsáveis por manter o equilíbrio fisiológico do corpo e desempenham um papel fundamental na interação entre mente e corpo. São dez ao total: cinco internos e cinco externos.

Os Cinco Váyus Internos
Práńa Váyu
Região entre o umbigo e a garganta
Responsável pela absorção e circulação da energia vital. Atua diretamente no funcionamento dos pulmões, da respiração e do coração. Quando equilibrado, o organismo torna-se mais resistente às doenças.
Apána Váyu
Região entre o umbigo e o ânus
Regula os processos de eliminação do corpo — urina, fezes, suor — e as funções reprodutivas como menstruação, parto e nutrição do feto.
Samána Váyu
Região do umbigo
Mantém o equilíbrio entre Práńa e Apána. Sua função principal está relacionada à digestão, à liberação de enzimas e ao funcionamento do fogo digestivo.
Udána Váyu
Região da garganta
Regula as cordas vocais e a expressão do pensamento através da fala. Relaciona-se também à força mental, memória e determinação.
Vyána Váyu
Distribuído por todo o corpo
Associado à circulação dos fluidos vitais e do sangue. Governa o sistema músculo-esquelético, nutrindo músculos, ossos e pele, e influencia a percepção das experiências sensoriais.
Os Cinco Váyus Externos
Nága
Articulações
Responsável pelos movimentos expansivos do corpo, como pular, esticar ou espreguiçar-se.
Kúrma
Glândulas
Responsável pelos movimentos de contração do organismo.
Krkara
Todo o corpo
Associado às variações de pressão do ar. Manifesta-se em fenômenos como o bocejo, o soluço e o espirro.
Devadatta
Estômago
Responsável pelas sensações de fome e sede, regulando os estímulos associados ao estômago.
Dhanaiṋjaya
Todo o corpo
Associado ao sono e à sonolência. Permanece ativo no corpo mesmo após a saída dos outros váyus, estando relacionado aos processos finais do organismo.

Práńáyáma — o controle da energia vital

Aquilo que regula e controla os dez váyus é chamado de práńáyáma. Mas o práńáyáma não é apenas uma série de exercícios respiratórios — é uma ciência do controle da mente por meio da energia vital.

Existe uma hierarquia funcional entre os diferentes níveis da existência humana:

01
Os indriyas (órgãos sensoriais e motores) controlam o corpo.
02
A mente controla os indriyas.
03
Os váyus (energia vital) influenciam e controlam a mente.
04
O práńáyáma regula os váyus — e assim, indiretamente, estabiliza a mente.

Por essa razão, o fluxo da respiração está profundamente relacionado com o estado mental. Uma respiração lenta, profunda e regular contribui para a estabilidade da mente. Quando o ritmo respiratório é canalizado de forma consciente, a mente pode ser gradualmente aquietada.

Na tradição da Ananda Marga, o práńáyáma faz parte de um sistema progressivo de práticas espirituais. Antes de receber essa prática, o aspirante desenvolve uma base sólida por meio de ásanas, meditação diária e disciplina espiritual. Somente após esse preparo, as instruções de práńáyáma são transmitidas diretamente por um Ácárya — garantindo que a energia vital seja canalizada de forma segura e equilibrada.

A respiração e os estados da mente

A relação entre respiração e mente não é apenas uma ideia filosófica — ela é observável na experiência cotidiana. Quando a mente está tranquila, os batimentos cardíacos e o ritmo respiratório tornam-se naturalmente mais equilibrados. Por outro lado, quando a respiração se torna acelerada ou irregular, surgem dificuldade de concentração, instabilidade emocional e agitação mental.

Em estados de concentração profunda ou meditação, a frequência respiratória pode diminuir significativamente. Enquanto uma pessoa comum respira cerca de 15 a 20 vezes por minuto, em estados meditativos esse ritmo pode cair para 3 ou 4 respirações por minuto — e em estados ainda mais profundos, a respiração pode tornar-se extremamente sutil, chegando a suspender-se temporariamente.

Por isso, os yogis recomendam a prática regular de respiração consciente como um dos primeiros passos no processo de equilíbrio psicofísico. Uma técnica simples pode ser praticada antes da meditação ou sempre que a mente estiver agitada:

O Práńendriya — o centro sutil do coração

Existe ainda um indriya especial, chamado Práńendriya. Diferentemente dos demais, ele não está localizado no cérebro, mas na região central do Anáhata Cakra — o centro psíquico do coração.

O Práńendriya é considerado o centro de controle dos dez váyus. Por exercer influência direta sobre a mente e sobre todas as funções psicofísicas, possui uma hierarquia superior em relação aos demais indriyas. Sem sua atuação, nenhum dos outros órgãos sensoriais ou motores pode funcionar adequadamente.

Seu funcionamento é pulsativo: alterna continuamente entre estados de expansão e contração, diretamente relacionados aos fluxos dos váyus. Quando em expansão, o fluxo de energia torna-se mais agitado e a percepção das vibrações externas se torna menos nítida. Quando em repouso ou contração, a mente torna-se mais calma e receptiva — e as experiências são registradas com maior clareza.

É por isso que a prática do práńáyáma, ao regular a respiração, amplia os períodos naturais de pausa do Práńendriya — favorecendo estados de maior quietude e percepção interior.

O que acontece no momento da morte

A psicologia do yoga oferece também uma perspectiva sobre o processo da morte — não como um tema mórbido, mas como parte de uma compreensão mais ampla sobre a natureza da vida e da consciência.

Segundo essa visão, a vida surge do ajuste adequado entre três elementos: o corpo físico, o corpo psíquico e os fluxos de energia vital (práńáh). Enquanto essa harmonia é mantida, a vida se manifesta. Quando ocorre a dissociação entre esses elementos, a morte se estabelece.

No processo da morte, os nove váyus (todos exceto Dhanaiṋjaya) gradualmente deixam a estrutura corporal. A mente dissociada carrega consigo os saḿskáras — as impressões acumuladas de ações passadas. Esses saḿskáras permanecem latentes e buscam nova oportunidade de expressão.

De acordo com a filosofia tântrica, é responsabilidade da Prakrti Cósmica fornecer uma nova estrutura física adequada para que esses saḿskáras possam manifestar-se — permitindo que o processo evolutivo da mente continue em direção à sua meta final.

"Quando o mundo escuro da mente inconsciente é iluminado pela luz do próprio Átman, a mente inconsciente atinge o estado característico do Átman e é absorvida na Consciência Cósmica."

Shrii Shrii Ánandamúrti — Este Mundo e o Próximo, 1956

Um mapa para a jornada interior

A psicologia do yoga não é apenas teoria. É um mapa — rigoroso e ao mesmo tempo profundamente humano — do funcionamento da mente e da energia que sustenta a vida.

Compreender como a mente se estrutura em camadas, como a energia vital circula pelo corpo, como a respiração influencia os estados mentais, como os indriyas conectam a mente ao mundo — tudo isso não são curiosidades abstratas. São instrumentos de autoconhecimento que o praticante pode usar a cada dia, a cada respiração, a cada momento de silêncio.

Dentro da tradição do Yoga, esse conhecimento é inseparável da prática. Não se estuda a mente para falar sobre ela — estuda-se para transformá-la, refiná-la, e gradualmente conduzi-la de volta à sua fonte: a Consciência que é a base de tudo que existe.

Referências
  • ANANDAMURTI, Shrii Shrii. Yoga Psychology. Ananda Marga Publications.
  • ANANDAMURTI, Shrii Shrii. Ánanda Sútram. Ananda Marga Publications.
  • ANANDAMURTI, Shrii Shrii. Discourses on Tantra. Ananda Marga Publications.
  • ANANDAMURTI, Shrii Shrii. Este Mundo e o Próximo. Ananda Marga Publications.
  • ANANDAMURTI, Shrii Shrii. Subhasita Samgraha. Ananda Marga Publications.
  • SARKAR, Prabhat Ranjan. Escritos da Ananda Marga.